CHOQUE CULTURAL: NINGUÉM ESTÁ IMUNE


O choque cultural é um acontecimento inevitável quando viajamos para outro país onde os hábitos, costumes, princípios e valores funcionam de uma forma completamente diferente do nosso.  
A primeira vez que o senti na pele tinha 24 anos, tinha chegado aos EUA para viver e trabalhar durante um ano. Tinha poucas expectativas mas estava optimista porque a cultura americana é igualmente ocidental e por isso não deveria ser assim tão diferente de Portugal. Enganei-me. Os Estados Unidos da América é um país enorme e eu calhei no estado de Maine. Este é um estado muito bonito em termos naturais mas também conservador, ou seja, eles levam o conceito de Personal Bubble muito a peito. Se estiveres à espera do autocarro e estiver alguém sentado num banco de 3 pessoas à espera do transporte, esquece, já não te podes sentar porque tens de estar a 2 metros dessa pessoa. Tocar em alguém?! What? Enlouqueceste? Dar aquelas palmadinhas nas costas a um colega de trabalho é para esquecer. Dar dois beijos para cumprimentar alguém? Oh nãããooo! 
Para mim, além de ter de lidar com esta questão do tocar em pessoas conhecidas, tinha também de entender os meus limites no trabalho pois estava a lidar com crianças abandonadas pelos pais, que tinham uma forte carência afectiva. No inicio fui avisada mil vezes pelos meus colegas que não podia fazer-lhes festinhas porque poderia ser acusada de abuso e processada. Vocês sabem que nos EUA podem ser processados por tudo e por nada certo? 

Vá lá que na primeira semana tivemos uma formação intensiva que incluía o tema de choque cultural e ficámos com umas luzinhas de como proceder, mas isto na teoria é tudo muito bonito. Foi preciso um mês para que finalmente pudesse relaxar e desfrutar da minha estadia nos EUA. Acredito que em São Francisco ou Nova Iorque, cidades maiores e multiculturais, o choque seja menor. 


Na última publicação aqui no Viver a Viajar, quando listei "Oito Sítios para Visitar em Bogotá", contei-vos que senti o choque cultural. 
Este choque alimenta-se também de expectativas e enganos e, no meu caso, tinha a ideia de que todos os países da América do Sul eram relativamente baratos para viajar. Quando tivemos de pagar 10 dólares por uma viagem de autocarro que iria demorar duas horas caiu-nos tudo. Parece pouco mas quando viaja-se durante cinco meses acreditem, é um balúrdio. Não só os transportes mas o alojamento era ridículo, quase os mesmos preços que em Portugal. Não estava a contar com isto de todo. Vá lá que há remédio para tudo e passamos a andar mais à boleia (chegamos a poupar 100 dólares numa viagem de autocarro de oito horas - na época natalícia os preços dos transportes dsiparam) e fizemos muito Couch Surfing também.

Pior do que os preços médio-altos para o nosso orçamento, era o facto de a toda a hora e todo o minuto tentarem nos roubar indirectamente. Nós já percebemos que há que regatear preços, afinal de contas somos vistos como turistas cheios de dinheiro então eles vão tentar sacar o mais que puderem. Na boa entendo isso e entro no jogo, porque faz parte e porque até é divertido. Agora teres de contar o teu troco a toda a hora é demais! Até na loja de cambio de dinheiro deram-nos 10 dólares a menos, naquela sabem, a ver se colava. 
Chega a ser muito chato porque na grande maioria das vezes tínhamos de dizer ao vendedor que o troco estava errado e isto, meus amigos, a toda a hora é aborrecido e frustrante. Nós somos daqueles viajantes que quando nos retiram, nem que seja 50 cêntimos, dizemos, porque assim estes vendedores vão tentando sempre com pessoas diferentes.

Por último, outra coisa muito chata em Bogotá e depois percebemos que na Colômbia inteira, quando perguntávamos por direcções, mesmo que eles não saibam apontam para um lado aleatório. Ou seja, em vez de dizerem "Não sei", dizem "Ali à esquerda". Até percebermos esta situação tivemos de perder muito tempo a penar à procura de lugares que nunca existiam. Not cool kids. 

Depois destes dois casos de choque cultural, nos EUA e Colômbia, ainda o senti mais uma vez na pele no Peru e mais fortemente na Bolivia, podem ler tudinho aqui

Isto leva-me a crer que por mais anos de viagens que faças ninguém está imune ao choque cultural, porque tem muito que ver com a nossa percepção da realidade, facilidade de adaptação, pesquisa pré-viagem sobre a cultura. É chato? É, sim senhora, mas são estas diferenças que nos fazem seres únicos, conhecemos diferentes formas de estar no Mundo que por vezes adoptamos e trazemos para a nossa vida.

Quem é que já viveu o choque cultural? De que forma? 

4 comments:

  1. Marta não tinha mesmo noção das diferenças nos Estados Unidos. Já sabia que há locais nos USA muito mais conservadores mas essa coisa de não se poder fazer festas a uma criança é muito fora mesmo, principalmente para nós que somos um povo de toque :) Mas depois de ler o teu post percebi que recentemente senti um grande choque cultural em Gotemburgo. É uma cidade incrível mas os suecos são efectivamente muito diferentes de nós. Não cumprimentam ninguém com beijinhos, a quem conhecem dão abraços fortes, que não conhecem ou conhecem mas não são intimos cumprimentam com apertos de mão e depois também não são muito de cederem lugares nos transportes ou agradecerem se o fizeres.

    beijinhos
    Vânia
    Lolly Taste

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    1. Pois é somos um povo que toca muito nas outras pessoas, fazemo-lo de tal forma natural que nem nos apercebemos que estamos a penetrar na privacidade da pessoa.
      Isso do cumprimentar já é o normal no mundo, o que eu faço é esperar para ver como o outro faz para repetir hehe

      Mas não estava à espera que os suecos não cedessem o assento a quem mais precisa? Os nórdicos têm fama de boa educação e cidadania... será que é só em Gotemburgo?

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    2. Pelo que sei é geral na Suécia (tenho uma amiga a viver lá e o namorado é sueco) e pelos vistos são mesmo assim. Eles são super educados, são os reis da reciclagem (aqui também foi um grande choque porque há mil contentores difere tes e tu ficas confusa onde colocar a reciclagem) da preservação ambiental, param em todas as passadeiras e respeitam imenso as bicicletas mas de facto nos transportes não sao mesmo os mais educados. No fundo acho que eles assumem que existem os lugares já reservados para esse efeito e na realidade ninguém que não precise se senta lá (ao contrário de nós) por isso não sentem necessidade de dar o lugar onde estão.

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  2. Os sítios em que senti um maior choque cultural foi no Egipto (aqui mais por ser rapariga) e na Bolívia. Mas acima de tudo no último país, em que nem sequer me senti bem-vinda, fomos recusados em alojamentos só porque não decidimos logo ficar com o quarto (isto na Isla del Sol), tivemos uma situação inacreditável em La Paz, sítio em que alugámos um apartamento para estarmos à vontade antes de ir para o Salar Uyuni e acabámos por não ter sossego nenhum, já que o dono nos obrigou a mudar de apartamento num dos dias tipo às 20h (estávamos num supermercado a fazer compras para jantar, tivemos de voltar, arrumar as mochilas e pegar nelas para irmos para um apartamento umas ruas abaixo, isto depois de já nos terem feito esperar horas para entrar e deixar mochilas no 1º apartamento), falta de honestidade das companhias de autocarros, enfim, uma sucessão de coisas que nunca imaginei que pudessem acontecer. Lembro-me que quando entrei no Chile, por Atacama, foi uma lufada de ar fresco, um alívio, porque lá recebiam super bem os viajantes. Ainda assim é como dizes, gostei de conhecer a Bolívia e as suas pessoas, claramente ainda muito conservadoras no que toca a receber estrangeiros no país. Mas é assim que se conhece o mundo - se não for para estas coisas, para nos confrontarmos com mundos diferentes do nosso (para melhor ou para pior), viajar não vale a pena!

    Aonde (não) estou

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Grata por comentares, adoro saber o que passa pela tua mente.