OPINIÃO DO LIVRO: ATÉ ONDE VAIS COM 1000€?


Num desses dias de Verão deu-me na cabeça ler um livro qualquer de viagens mas não me apetecia gastar dinheiro então rumei à Biblioteca Municipal na esperança de encontrar algures naqueles corredores repletos de livros algo que me chamasse a atenção.

Foi como se já estivesse escrito: cheguei, pus os olhos nas capas laterais dos livros até que li "Até onde vais com 1000€". Fiquei assustada com o tamanho astronómico do livro, engoli em seco mas fui directamente à parte de trás ler o resumo. Fiquei abismada como nunca tive conhecimento deste livro ou até mesmo do blog, com o mesmo nome, escrito por Jorge Vassallo e Carlos Carneiro. Estes meninos, por outro lado, não me eram estranhos e lembrei-me subitamente que eram líderes de viagens da Nomad. Sem qualquer pensamento extra não voltei a pôr o livro na estante e trouxe debaixo do braço. Não me dei ao trabalho de tentar encontrar um livro mais pequeno ou que achasse mais interessante pois teria de devolver à biblioteca dali a um mês e este livrinho meus amigos, já dava pano pra mangas.

Basicamente, estes dois viajantes decidiram fazer uma viagem mais excêntrica para adicionar aos seus curriculos já vastos de viagens. Desta vez lembraram-se de pegar numa bicicleta cada um (bem velhas e sem grandes condições) e pedalar desde Lisboa até Dakar com um orçamento de 1000€ cada um. Como já não bastasse, durante a viagem iriam relatar as suas histórias através do blog e fazer videos diversos. 

Admito que quando percebi que o livro era escrito pelos dois autores pensei logo em total desgraça, pois a linguagem seria bastante diferente, o que iria dificultar a minha leitura e entendimento. Mas não, embora seja escrito um relato do Jorge e depois outro relato do Carlos, dá a sensação de união, de um só livro escrito por uma pessoa pois eles têm uma forma muito similar de se exprimirem, através de ironia, histórias passadas, piadas, comparações engraçadas e descrição, muita descrição, demasiada descrição. Penso que foi este último factor que fez com a minha leitura tornasse massuda, faltando-me alguma motivação para ler todos os dias.

Embora no inicio não estivesse grudada ao livro, na segunda metade do livro o caso muda de figura e todos os minutos livres seriam para devorar outro capítulo e outro, se possível. No momento que começaram a entrar no Deserto do Sahara o meu interesse aumentou, nem sonhava que era possivel atravessar esse deserto de bicicleta, sequer que existia uma estrada a passar por ele? Ainda por cima junto ao oceano? Fiquei com uma vontade estrondosa de fazer o mesmo, mas talvez de moto ou jipe. (haha preguicite aguda)

Revi-me em muitas situações que eles viveram em Marrocos, na minha aventura de cinco semanas em Marrocos de mochila às costas e a pedir boleia. 

Como por exemplo: 

>> a extraordinária hospitalidade; 

>> a "estranheza de comportamentos" em que nos queriam arrancar dinheiro através da compra de produtos que não nos interessava, ou na oferta de ficarmos no seu hotel por uma quantia exurbitante para depois perceberem que não tinhamos muito dinheiro e assim já era de graça; 

>> "as mulheres escondidas". Raramente viamos mulheres a passear e o que senti mais estranho ainda é que era a unica mulher nos cafés, sempre. Parece que não é habitual as mulheres frequentarem espaços sociais e que o seu papel é meramente de dona de casa. 

>> o amor incontornavel pelo Cristiano Ronaldo. - "Where are you from?" - "Portugal"- "ohhh Cristiano very good player". Ouvi isto mais de mil vezes. Em Marrocos existe uma adoração platonica por futebol e sendo Cristiano Ronaldo o melhor futebolista do Mundo é normal que fiquem tão entusiasmados quando conhecem alguém do mesmo país do Cristiano. 

"É importante ter a capacidade de afastamento dos conceitos que nos são impostos pela nossa tradição cultural, e conseguir olhar para todas as coisas (objectos, ideias, processos) de um ponto de vista diferente." 
(Jorge, pág. 192)

Gostei especialmente de dois capítulos. O primeiro intitutala-se "O bê-á-bá do vigarista"(já estão a perceber a parte dos escritores serem engraçados, não é?) e tem que ver com a questão dos marroquinos tentarem constantemente arracar dinheiro da nossa parte por sermos europeus e portanto temos todos imenso dinheiro (not!). O que acontece, e revi-me outra vez, é que há marroquinos que arranjam esquemas super bem planeados para nos sacarem guita, de forma a não entendermos muito bem que estamos a ser roubados ou enganados. Estão a perceber a "estranheza de comportamentos" citada lá mais acima? Mas como o Carlos já tinha estado na Índia e passou pelo mesmo caso, desta vez não foram enganados, afinal de contas a Índia é um otimo professor no que toca à vigarice. 

O outro capítulo que fiquei rendida a ler já eles estavam na Mauritânia e chama-se "O Djaló é assim". Gostei especialmente de ler este capítulo porque sou apaixonada por histórias de vida, retiro sempre inspiração e fico fascinada como há pessoas que vivem de uma forma tão diferente da minha, sejam ricos ou pobres, felizes ou infelizes, da Conchichina ou da Antartida. O Carlos e Jorge ficaram hospedados por um português na Mauritânia que vivia com o Djaló. O Djaló é um rastafari com vinte e muitos anos, com um espirito aventureiro. Aquele tipico homem dos mil e um oficios: trabalhou como barbeiro, feirante, em minas de diamantes e jazidas de petroleo. Mas o que me surpreendeu mais foi a sua capacidade em construir um esquema em que através da sua televisão por cabo conseguia meter outras tantas familia com cabo também. Estas familias pagavam uma mensalidade por x canais e os canais de pornografia só eram visiveis às tantas da matina. 

Embora tenha demorado mais de um mês a conseguir finalizar o livro gostei muito de ler os relatos de viajantes que utilizam como meio de deslocação a bicicleta e que têm um objectivo tão concreto e quase que absurdo. É que não é só a questão física que predomina, já pensaram como será viajar sem nunca sabermos onde iremos dormir? Se teremos dinheiro suficiente para comer mais para o final? Se as bicicletas têm uma avaria grave? Cá para mim eles conseguiram se safar sempre de situações menos agradaveis pois souberam manter a tranquilidade e levaram a viagem com um espirito aberto e flexivel. A meu ver, souberam abraçar cada oportunidade. 

E vocês, eram capazes de fazer uma viagem deste estilo? Ficaram com vontade de ler este livro?

1 comment:

  1. Marta, se conseguires vencer a preguiça eu vou contigo! Em alternativa podes vir fazer Tróia Sagres comigo e o meu mais que tudo ;)

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Grata por comentares, adoro saber o que passa pela tua mente.