RELATOS DE DIAS PASSADOS NUM MOSTEIRO



Quando viajo busco por experiências únicas, que não tenha lido em nenhum livro ou que uma vez vi na telivisão. É certo que sou aventureira e à custa disso já me vi em situações repletas de adrenalina. Mas é isto que me faz sentir viva! O coração a bater com força, quase a sair do meu corpo, as borboletas a esvoaçarem no estomago, a garganta seca, os olhos esbugalhados... Adoro cada uma destas sensações. 

Quis ir a Myanmar porque estava no topo da minha lista e a Ana que queria ir para Laos lembrou-se de ver umas fotitas no google de Myanmar e ficou encantada. Assim num abrir e fechar de olhos disse "Afinal vou contigo a Myanmar". Para variar não sabiamos nada do país, mas a Ana contou-me que a Lígia do blog A Crush On, tinha viajado em Myanmar e contou-lhe que tinha ficado com um monge no mosteiro que ele vive. WHAT? É que nem quis saber como nem porquê, foi mais "Então Ana, 'tás a espera do quê? Manda já uma mensagem à Lígia e procura saber como o fazer pois nós também vamos para esse mosteiro."
(Quem me segue pelo instagram já viu algumas das fotos que se seguem, daí a sensação de déjà-vu)





O Uvi Seitta, um monge com os seus cinquenta anos, acolhe viajantes do Mundo inteiro há um par de anos no seu mosteiro, através do Couch Surfing. A verdade é que esta prática de ter estrangeiros a dormir nas habitações dos birmanenses pode-lhes custar caro pois é ilegal, tal como na maioria dos países asiaticos. É engraçado que o Uvi nem quer saber. Desde que vi um monge cheio de tatuagens a fumar um cigarro na Tailândia, comecei a olhar para os monges de outra forma. Podem até ter as suas convicções e práticas religiosas mas acima de tudo são humanos, como todos nós.

Mas o que me surpreendeu mais foi descobrir que o Uvi não acolhe viajantes apenas para proveito próprio, ou seja, para conhecer culturas do nosso planeta. Ele tem todo um projecto educacional que nem vos passa pela cabeça. 
Só nos apercebemos disso quando ele nos pergunta se poderiamos antes passar o fim de semana no mosteiro pois é quando há o clube de inglês. Fez-se o clique nas nossas cabecinhas e percebemos que iriamos ajudar um conjunto de estudantes adolescentes a praticar a língua inglesa. Pensamos que fosse uma troca justa mas nem perguntamos como isso iria acontecer. Nós as duas adoramos o factor surpresa, será que é por sermos aquarianas? Hmmm...





Chegamos ao Mosteiro do Uvi eram 5 da manhã!! A sério, que hora tão boa para chegarmos à casa de alguém, ainda por cima desconhecido. Ele recebeu-nos tão bem, sem muitas palavras mostrou-nos o quarto e a casa-de-banho e em 10 minutos estavamos a dormir uma bela soneca. 
Acordamos tarde, à hora do almoço, já com dois estudantes por lá. Foram nos apresentar o mosteiro, falaram um bocado do budismo e mostraram-nos pinturas bem coloridas e expressivas sobre a história do Buda. Tiramos imensas selfies, o Uvi adora fotografia. Fiquei deslumbrada com o seu album de fotografias de 10 quilos com fotografias de todos os viajantes que já passaram por lá. Ele lembra se de todos!! 





Quando voltamos estava um mundo à nossa espera. Eram tantos e com nomes tão complicados de fixar que até hoje os tenho no facebook e tenho dificuldades em perceber quem é pelo nome. O Uvi presenteou-nos com um belo almoço, que todos os dias vai pedir às pessoas. É uma prática comum em países budistas, os monges pegam nos seus "tupperwares" de metal e vão em busca de alimentação. A comida de Myanmar é tão deliciosa!
Ficamos perdidas na conversa com esta rapaziada por algumas horas. Eram adolescentes com sede de saber inglês. Perguntavam-nos imensas coisas, desde a nossa cultura, à nossa vida pessoal. O inglês deles era muito bom, para quem não teve as bases como nós no 5º ano. Havia lá um rapaz que usava palavras tão rebuscadas que nem eu as sabia! Chamava-lhe O Dicionário. Tenho a certeza que lê livros muito à frente, ou até enciclopédias :D 




No dia seguinte fomos convidadas para um casamento que iria se realizar dali a 3 dias. Dissemos logo que sim! A tal flexibilidade de viajante, já iamos ficar 2 dias a mais no mosteiro do que era esperado. Mas não me importava nada! A vida ali era tão tranquila, tão simples, tão bonita. 
Voltei aos tempos de India e a casa de banho resumia-se a um buraco no chão, um balde com água e um mini balde que servia tanto para jogar depois do xixizinho, como para jogar para cima de nós, para nos banharmos. Adoro tomar banho assim, fico com a noção que normalmente gasto imensa água para um simples banho diário. 
Ao passarmos pelas salas sem janelas, conseguiamos observar os monges a meditar ou a ter uma aula. Por vezes citavam mantras em consonância, só me apetecia juntar-me a eles mas o Uvi disse que isso não seria bem visto. Tenho de admitir que seria intrometer-me de uma forma brusca nos seus rituais. Não era nada boa idea, vá. 
Acordavamos sempre com os cães a uivar assim que tocavam o sino. Penso que as vibrações atormentam os pobres animais. Parecia, portanto, lua cheia todas as noites. Fora isso, dormiamos um sono tão profundo, a energia à nossa volta fluia tão leve. 




Sala de aula lá fora

O clube de inglês foi tão giro! É todos os Sábados de manhã na universidade que estudam. Debatemos se ter uma relação amorosa na adolescência era benefico, quem era o nosso heroi e porquê (eu respondi Fernando Pessoa, foi o que me saiu) e ainda fizemos uns jogos género policia e ladrão. No final ainda comemos um lanchinho e as meninas dançaram danças tipicas de Myanmar para assistirmos! Saí de coração cheio desta manhã <3 

No dia seguinte fomos convidadas para participar numa aula de inglês com um monge. O senhor era tão cómico! Gostei muito de conversar com ele sobre o governo comunista que viviam e as suas viagens pelo Japão. Eu e a Ana nem sabiamos que era suposto apresentar-nos e falar sobre a nossa vida. Mas até nos safamos bem :) Mais uma vez fomos tão bem recebidas. 




Aquele mosteiro era um vai e vem de estudantes a partilharem as refeições connosco, boas doses de gargalhadas e muita animação. Foi doloroso irmos embora pois logo sentimos aquele vazio por não termos aqueles seres tão simpáticos e sorridentes à nossa volta. 
Resumindo, foram dias intensos a conversar bastante em inglês mas tão gratificantes! Daqueles sítios que espero voltar um dia :)

8 comments:

  1. Olá Marta, adorei cada história! Que fixe! Obrigada por partilhares ;) beijinho

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    1. Que bom que gostaste, estava com receio que a publicação tenha ficado demasiado extensa.
      Um excelente fim de semana!
      Beijoca*

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  2. Deve ter sido uma experiência bem boa! Acho que a pôr na minha lista de coisas a fazer :) Dormir num mosteiro, uau!

    Em 2013 estive na Rússia e também participei num Clube de Inglês. Por lá, a língua não é falada por quase ninguém, mas algumas pessoas (especialmente os mais jovens) apercebem-se da importância de falar mais do que um idioma, e juntam-se para falarem e aprenderem inglês, de forma totalmente informal. É um conceito muito interessante.

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    1. Tal e qual Catarina. Os estudantes que vos falo aqui eram como os russos jovens de que falas, com sede de aprender inglês pois sabem que assim podem ter um futuro melhor. Além disso, esta é também uma forma de conhecer o Mundo, já que não têm meios financeiros de viajar, desta forma, o Mundo vem até eles.

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  3. Quando era miúda tinha esse sonho de ir pelo mundo fora de mochila. Perdi-me desse sonho nem sei bem como. Agora viajo assim, através dos relatos de outros... Obrigado por partilhares. bjs

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    1. A vida vai passando e alguns sonhos também passam :) Mas a minha ideia aqui também é inspirar as pessoas a viajar, nem que seja um fim de semana lá fora cá dentro.

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  4. Que post maravilhoso! As tuas palavras, as tuas fotografias e as tuas experiências!! Eu imagino a explosão de sentimentos dentro de ti a viver tudo isto!!
    Obrigada por partilhares. Beijinho grande e boa semana*

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  5. Que viagem de sonho... (suspiro)
    Acho que seria muito feliz a visitar Myanmar e as tuas fotos e relatos só me ajudam a convencer mais disso. :)*

    Joan of July

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Grata por comentares, adoro saber o que passa pela tua mente.